BAHIA TOTAL = BRASIL TROPICAL

 

Hilda Orquídea Hartmann Lontra - UnB

 

O vórtice da poesia o antigo sonho de viagem dos poetas de trazer transparência fundura abismo adivinhação vertigem ao papel plano das palavras escritas à horizontalidade morta das letras à retilínea nudez delas oh! os poetas inventaram inventarão para sim mesmos o mito de que assim palavras antes foram som de ser palavras – alma: alga: lama mal amalgamada – velando e revelando o talvez nome sem nome que as coisas têm de nós dentro

 

Caetano Veloso, “Navilouca”.

 

Em finais da década de 60 do século XX acontecia no Brasil o Tropicalismo, mo(vi)mento cultural, enraizado na Bahia, que se estendeu durante mais de 20 anos. Tendo à cabeça Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros artistas da palavra, o Tropicalismo expandiu, com suas manifestações poéticas, em todo o território nacional, a visão de identidade que dá título a este trabalho: Bahia total = Brasil tropical.

Equacionando a visão de mundo desses poetas em uma expressão matemática, Bahia igual Brasil, hoje, no limiar do terceiro milênio, volto a defender a tese já apresentada no Sul do País, há cerca de duas décadas, com a certeza de ainda estar contribuindo para o entendimento do complexo fenômeno da brasilidade, cantada e decantada nos palcos e nas platéias de todos os pontos do território nacional[1].

Literatura quase comparada, o diálogo entre canções assinadas por Caetano Veloso e Gilberto Gil se insere no tema maior deste VII Congresso da ABRALIC – Terras e Gentes –, por ser esse o vetor que vou perseguir ao esmiuçar certas letras poéticas que fazem parte do cânone do Modernismo na Música Popular Brasileira, discutindo a seguinte questão: pode a literatura, aliando-se à mídia, consolidar identidades, chegar aos cidadãos e contribuir, de alguma forma, para o (re)conhecimento do sujeito na história do seu tempo?

Então voltemos ao que se encontra na epígrafe: revelar o talvez nome que as coisas têm sob a horizontalidade morta das letras, buscando na fundura abismo dos textos a visão de mundo dos poetas, o vórtice da poesia; eis o que se pretende. Devemos então recuperar o que foi expandido antes, para reforçar o que ficou consagrado depois.

 

Terras Tropicais

 

Quando se propuseram revelar a situação dos trópicos, Caetano e Gil confessavam-se influenciados pela realidade vivenciada na época (espaço e tempo, cultura e artes): Não posso negar o que já li, nem posso esquecer onde vivo, afirmava Veloso a Décio Bar[2] que, sabiamente, dava à reportagem o título: “Caetano: acontece que ele é baiano”. Por seu turno, Gil[3] dizia Teve um momento em minha vida que achei que tinha obrigações políticas, no sentido de contribuir o mais intensamente possível para as transformações desejadas.

Essa necessidade (comum aos dois artistas) de delimitar o seu espaço e nominar, pela palavra poética, o seu tempo, esperando contribuir para transformações no universo das relações humanas, vem da Bahia, o mais antigo e exótico[4] dos estados brasileiros. Esse centro tropical de paisagem exuberante, banhada pelo mar, identifica-se (até configurativamente) com a espacialidade brasileira, idealizada pelos românticos e expandida pelos simbolistas. Traduz o éden, o paraíso de infância que não se consegue esquecer:

 

Na minha Terra, a Bahia

entre o mar e a poesia,

tem o porto Salvador.

As ladeiras da cidade

descem das nuvens pro mar.

E num tempo que passou

toda a cidade descia

vinha pra feira comprar.

Toda a cidade descia

vinha pra feira comprar. (Gil e Capinam, “Água de Meninos”)

 

Por ter seus limites configurados entre o céu, o mar e a poesia, o cenário – Salvador – reveste-se, desde o nome, de um caráter simbólico, expandido em seu horizontes míticos e eternizado verticalmente no tempo. Pela fusão dos semas – céu + mar + poesia + salvador –, na Bahia Total reforçam-se as idéias de segurança (e de passagem descem das nuvens pro mar), fortalecem-se os limites do sagrado Salvador (e também do profano vinha pra feira comprar), configuram-se as geografias físicas e a história política. No entanto, nessas aparentes dicotomias prevalece o lado positivo, em que não se estabelecem conflitos. Outras canções reforçam tal aspecto:

 

A Bahia é que é o cais

a praia, a beira, a espuma,

e a Bahia só tem uma

costa clara litoral (...)

É o azul que a gente fita

no azul do mar da Bahia,

é a cor que lá principia

e que habita em meu coração (Caetano e Gil, “Beira mar”)

 

A relação intensa existente entre o espaço ideal (idealizado) e o homem, está associada a um tempo sagrado, passado, situado na origem (do poeta, do estado da arte, da parte do país): onde nasci passa um rio / que passa num igual sem fim (ecoam versos de Fernando Pessoa, falando de outras terras e de outros rios) e o rio da minha terra / deságua dentro de mim (Caetano Veloso, “Onde nasci passa um rio”); nasci numa onda verde / na espuma me batizei / vim trazido numa rede (novamente a história de redes e de pescas, de vidas e de mortes) na areia me enterrarei (Caetano e Gil; “Beira mar”).

Constata-se, nesses fragmentos, a opção pelo discurso ingênuo, popular (em versos de redondilha maior, com várias repetições, por exemplo), reforçando uma visão também ingênua, romantizada, idealizada da realidade telúrica circundante. No entanto, ao olhar o distante, horizontalmente, os poetas constatam que o mundo não termina nesse espaço; há algo mais, há algo além: Atrás do mar a Marinha / atrás da marinha o moinho / atrás do moinho o governo (Gil e Capinam; “Água de meninos”). O afastar-se desse espaço paradisíaco, de tempo mítico, com certeza, e, provavelmente, o aproximar-se da autoridade do governo fazem o homem – não mais ser cultural, mas sujeito político[5] – perder sua segurança. Mudam a sua ingenuidade no dizer e o seu modo lírico de olhar:

 

Naquela ausência de calor, de cor, de sal, de sol, de coração pra sentir

tanta saudade preservada num velho baú de prata dentro de mim,

digo baú de prata porque prata é a luz do luar,

do luar que tanta falta me fazia junto do mar,

Mar da Bahia, cujo verde vez em quando me fazia bem relembrar

tão diferente verde também tão lindo dos gramados campos de lá;(Gil, “Back in Bahia”)

 

A consciência da passagem e da fugacidade do tempo e a distância da circunstância espacial estão relacionadas à constatação das mutações por que passa a realidade: Igual sem fim, minha terra / passava dentro de mim / passava como se o tempo / nada pudesse mudar / passava como se o rio / não desaguasse no mar (Caetano Veloso; “Onde nasci passa um rio”).

Mas o tempo, da mesma forma que a água do rio, da mesma forma que a estrada, foge continuamente a caminho do mar: Diz Caetano, em “It’s a long way”: A água com a areia brinca na beira do mar / a água passa e a areia fica no lugar e, em “Avarandado”: e essa estrada vai dar no mar (...) / vamos andando na estrada / que vai dar no avarandado do amanhecer. A procura por uma nova época ensaia-se desde esses tempos sombrios[6]

As circunstâncias espaciais e temporais ondulantes, unem-se. Assim, passados os primeiros tempos, o espaço ideal sofreu mudanças, o cenário baiano já não era/é o mesmo. Na adolescência, a constatação das mudanças faz o canto surgir mais crítico, mais dolorosamente chorado:

 

Triste Bahia, ó quão dessemelhante

estás, estou do nosso antigo estado

pobre te vejo a ti, tu a mim empenhado

rica te vejo eu já, tu a mim abundante

a ti trocou-te a máquina mercante

que em tua larga barra tem entrado

a mim me vêm trocando e têm trocado

tanto negócio e tanto negociante (Caetano Veloso, “Triste Bahia”)

 

Presencia-se a identificação plena da geografia humana com a história particular, do Estado e do estado dos autores, e constata-se que há uma passagem do tempo artístico, de uma postura engrandecedora para uma observação crítica do presente. A poética para expandir tal sentimento não fica isenta a mudanças: de uma redondilha maior ou de metros clássicos, sonoramente marcados por rimas toantes, vê-se o emergir da dissonância, da exploração do espaço em branco e do silêncio.

 

o barco

meu coração não agüenta

tanta tormenta agonia (...)

noite no teu tão bonito

sorriso solto perdido

horizonte

madrugada

o riso (...)

nada (Caetano Veloso e Chico Buarque; “Os argonautas”)

 

Assim sendo, há o anseio de uma futura volta ao passado e a expectativa de reviver o tempo mítico no espaço mitificado:

 

Ai, quem me dera

voltar,

quem me dera um dia,

meu deus, não tenho alegria

Bahia... no coração... (...)

Ai, quem me dera,

meu deus, quem me dera um dia,

de ver de novo a Bahia

soltinha no coração (Caetano Veloso; “Quem me dera”)

 

Verifica-se a identificação plena do homem (o poeta) com o espaço total (a Bahia), e o equacionamento singular do local (Bahia) com o geral (Minha Terra), numa associação positiva. Dessa forma, com referência ao subtema Terras, não se pode falar em relação metonímica, da parte com o todo, pois para os poetas só há vínculo afetivo circunscrito ao espaço geográfico da Bahia. A relação metafórica se firma: Minha Terra Total é Bahia Brasil.

 

Gentes Tropicais

 

Além da Minha Terra, a Bahia, tudo é continente, tudo é trópico. Daí a tropicalia[7], aparentemente, isentar a Bahia de seu contexto lingüístico e social. Assim, parte-se da premissa de que o Tropicalismo revela, em uma dimensão continental, a realidade vivenciada, por princípio, além do espaço sacralizado da Bahia. Lá, fora, além da marinha, no espaço da população tropical, imbricam-se várias geografias: política, econômica, social e humana, esta que destacamos com seus contrastes e desconcertos profundos.

Inclusa nos trópicos, a Bahia difere das demais regiões tropicais por evidenciar aspectos positivos, enquanto que, nas outras realidades distantes, predominam aspectos negativos, oriundos, na maioria das vezes, do abandono dos valores naturais e/ou da substituição desses valores pelos valores tecnológicos, contaminados por ideologias alienígenas, responsáveis pelos contrastes tropicais. Essa é a síntese do Tropicalismo.

As bem sucedidas análises que Favaretto faz do mo(vi)mento, principalmente a datada de 1979[8], elevam a composição “Geléia Geral” (Gilberto Gil e Torquato Neto) ao estatuto de paradigma do ambiente tropical, uma vez que tal canção pode ser considerada a matriz que condensa todos os paradigmas redistribuídos nas combinatórias das outras músicas, principalmente porque nela sobressai a justaposição do arcaico com o moderno, numa fusão espaço-temporal. Creio, porém, ser o título do poema, pelo poder de síntese, o que mais expressivamente fala das relações humanas tropicais: uma geléia geral, um sincretismo de culturas e ideologias díspares, constituindo um painel híbrido, hiperbólico e carnavalesco.

O quadro a seguir identifica alguns dos grandes contrastes presentes no ambiente dos trópicos brasileiros, desvelados nas letras das canções basilares desse mo(vi)mento[9]. Acompanhemos as duas leituras propostas: a horizontal e a vertical.

 

FRAGMENTAÇÃO, PARA ANÁLISE, DE ALGUMAS LETRAS DO TROPICALISMO

CANÇÕES

VALORES ABSORVIDOS

TRADIÇÕES NACIONAIS

GELÉIA GERAL

Gilberto Gil e Torquato Neto

Um elepê de Sinatra

Formiplac

Superpoder de paisano

Um jato

Tumbadora

Miss Linda Brasil

Maracujá

Mês de abril

Céu de anil

Carne seca na janela

Pilão

Selva selvagem

Voz do morro

ALEGRIA ALEGRIA

Caetano Veloso

Guerrilhas

Espaçonaves

Cardinales

Brigite Bardot

Bandeiras

Coca-cola

Fuzil

Telefone

Vento

Sol de dezembro

Casamento

Olhos cheios de cores

Peito cheio de amores

Livros

SOY LOCO POR TI AMÉRICA

Gilberto Gil e Capinam

Manequim

Trincheiras

Camponesa

Palmeiras

TRAMPOLIM

Caetano e Maria Betânia

Qualquer piscina

Mar de Amaralina

AQUELE ABRAÇO G. Gil

Banda de Ipanema

Moça da favela

SUPERBACANA

Caetano Veloso

Superflit / Supervinc

Superhist / Super-homem

Estilhaço sobre Copacabana

Poder atômico

Avanço econômico

 

O sol dos cinco sentidos

Nada no bolso ou nas mãos

BABY

Caetano Veloso

Piscina / margarina

Lanchonete / gasolina

 

Mim

 

Percebe-se, pela incorporação dos valores novos, que os valores tradicionais vão-se restringindo, diminuindo, até serem extintos. Esse processo de absorção da cultura alienígena, em detrimento da cultura aborígene, é apresentado despido de pudores, cruamente, conforme ocorre, e historicamente ocorreu.

Pela incorporação dos valores novos, advindos fundamentalmente do avanço científico e tecnológico, ocorrido principalmente num espaço cultural exterior aos trópicos, mas por estes assimilados, verifica-se reiterada a idéia expressa também (e principalmente) em “Geléia Geral”: a imagem do boi, da rês, da boiada, retrata o homem perdidamente pacífico e subordinado aos novos valores que ele desconhece e que o esmagam. São valores oriundos do capitalismo, valores do ouro, miticamente expressos em: Eu sou Midas / e tudo que eu canto e que eu toco / vira ouro (...) Eu sou / mas hei de saber transformar / o homem em ouro / ouro (Caetano Veloso e Fauzi Arap; “Midas”)

Os valores comuns, partilhados por todos os habitantes de uma região, por serem o fator de equilíbrio do grupo social, quando não se fazem comuns, sólidos, significativos, propiciam a desestruturação do grupo por eles regidos. Caetano Veloso e Gilberto Gil, mostrando que a sociedade estava estruturada por valores heterogêneos, justificam os desacertos sociais dos trópicos.

Revelam que uma camada da população dos trópicos estava preocupada em utilizar valores tradicionais (expressos nos ditos populares) para abonar suas condutas: não preferem são paulo / nem o rio de janeiro / apenas têm medo / de morrer sem dinheiro / eles choram aos sábados / pelo ano inteiro / e há só um galo / em cada galinheiro / e farinha pouca / meu pirão primeiro / e está sempre à esquerda / a porta do banheiro / e certa gente / se conhece no cheiro (Caetano Veloso; “Eles”). Essa camada da população, que se utiliza do imaginário popular em benefício próprio, pois sentam-se em volta da mesa / longe do quintal, contribuindo expressivamente para reforçar os contrastes sociais, sabem, com segurança, dos malefícios provenientes das desigualdades, para as gentes dos trópicos. Numa postura ideológica inequívoca, “Eles” têm certeza / do bem e do mal / falam com franqueza / do bem e do mal / crêem na existência / do bem e do mal, e se alimentam das desigualdades, que lhes é favorável, porque, apesar delas, são todos felizes / no dia de natal.

Nesse contexto de relações humanas, outras pessoas (que não se deixam iludir pelo discurso maniqueísta anterior) poderiam mergulhar na sua individualidade e, alienadamente, esquecer os problemas da estrutura social, mas preferem estar conscientes da realidade, mesmo que ela lhes traga malefícios de variada ordem:

 

sim, eu poderia abril as janelas que dão para dentro

percorrer correndo corredores de silêncio

perder as paredes aparentes do edifício

penetrar no labirinto (...)

mas eu prefiro abrir as janelas

pra que entrem todos os insetos (Caetano Veloso; “Janelas abertas nº. 2”)

 

Nesse tropical espaço de conflitos humanos, convivem várias gentes, de interesses distintos, sob o mesmo escaldante sol de anil. São também elementos da estrutura social desajustada, por valores conflitantes, a miss linda feia Lindonéia / mais desaparecida / que aparece na fotografia / do outro lado da vida e o “Jeca Total”, representante da gente no Senado / em plena sessão defendendo um projeto / que eleva o teto salarial do sertão. Todos eles vivem numa paisagem humana tropical, descaracterizada, em que o céu vai longe suspenso / em mastros firmes e lentos / frio palmeiral de cimento (Caetano Veloso; “Paisagem útil”) onde nem todas as flores são flores / nem toda a beleza são cores (Caetano Veloso; “Me perdoe Maria”) e num momento histórico / simples resultado /do desenvolvimento da ciência viva/ afirmação homem, normal / gradativa / sei lá que mais!... Decorrente de tal cenário humano, o poeta lamente, uma tristeza só: / Talvez não tenha mais luar pra clarear / minha canção e indaga: o que será do verso sem luar? (Gilberto Gil; “Lunik 9”).

Nesse contexto o homem / poeta assume os contrastes tropicais, aceita a tecnologia em detrimento da conservação da natureza, convive com os paradoxos sociais e comunica-os em sua linguagem nova: por enquanto apenas mino / o campo verde / acre e lírico sorvete / acrílico santo amargo / da purificação (Caetano Veloso; “Acrilírico”). Apesar disso, resta ainda a esperança no futuro: não quero mais / essas tardes mornais / normais / não quero mais / vídeo-tape mormaço / março, abril / eu quero um lugar / no ano 2000, / no geral / eu quero a geral (Gilberto Gil; “Cinema Olympia”).

Buscar, em Santo Amaro da Purificação (Bahia total), uma linguagem que mine o acrílico amargo da putrificação (Brasil tropical) e, com isso, transformar as tardes mornais (Brasil tropical) em normais, de março, abril, mesmo que isso só fosse alcançado no ano 2000 (Bahia total), consiste em assumir um gesto político[10] decisivo, oficial, em prol da geral.

Com essa leitura, há vinte anos, afirmava-se parecer ser a Bahia distinta do Brasil, por conseguir manter-se quase infensa ao clima que minava o restante do país; por isso, deveria emergir, dentre os baianos (ex-óticos e exóticos), o exemplo que resgatasse os valores mais autênticos nacionais e os fizesse partilhar com os novos valores adquiridos, de forma menos agressiva para os cidadãos. Agora, no ano 2000, vejamos de que forma convivem terras e gentes, pelo foco desses poetas.

 

Ano 2000: Bahia total = Brasil tropical

 

Caracterizado o trópico, inicialmente, por espaço social, além e aquém da Bahia, com o transcurso das horas deu-se a infiltração do clima efervescente circundante, contaminando a parte do éden original com os calores e os valores do todo tropical. Assim, a equação hoje faz-se verdadeira: em qual dimensão o tempo se apresente – antes, agora ou depois – a relação do homem com o trópico é sempre marcada por conflitos.

O primeiro conflito que se apresenta, e que desencadeia todos os demais, é a fragmentação da individualidade: por necessidade de sobrevivência, o sujeito se diz por partes, num processo metonímico em que a parte representa o todo, mas não a unidade desse todo. As “caras” identificam os indivíduos nos documentos, por fotos; as “caras de presidentes” apontam para as nações por eles presididas, bandeiras; as quais não representam os conflitos nacionais.

O “eu”, mesmo que tente se manter incólume aos novos e insólitos valores sociais, rejeitando-os para si e seguindo “contra o vento”, não o consegue, é utópico situar-se à margem das influências; ele não resiste a dois apelos: tomar uma coca-cola e (en)cantar na televisão. Na tentativa de conciliar seu mundo individual com o mundo tropical, contaminado pela tecnologia desde os modernos tempos, o poeta questiona qual a participação dessa para a solução dos seus problemas fundamentais, e constata: eu sei que cérebro nenhum / me dá socorro / em meu caminho / inevitável para a morte (Gilberto Gil; “Cérebro eletrônico”).

Com isso, instala-se o conflito central que vai estar atemporalmente presente na relação do homem com o trópico: por um lado a renúncia, a rejeição, a crítica; por ouro lado, a incapacidade de coexistir isento totalmente às tendências do meio. Assim, até hoje, permanece válida a expressão de que atrás do trio elétrico / só não vai quem já morreu / quem já botou pra rachar / aprendeu / que é do outro lado / que é lá / do lado de lá (Caetano Veloso; “Atrás do trio elétrico”).

Constatando os rumos tomados pela civilização, com as mudanças que se operaram no universo cultural, e sentindo que as barreiras espaciais foram vencidas, duas atitudes semelhantes restam ao homem para firmar-se sujeito da sua história: a rejeição do espaço-tempo vivenciado com o desejo de volta às origens – a cultura e a civilização / elas que se danem ou não / somente me interessam / conquanto me deixem meu licor de jenipapo / e o pão das noites de São João (Gilberto Gil; “Cultura e Civilização”) e ainda canto quieto / tudo o que conheço / quero o que não mereço / o começo (Caetano Veloso; “Acrilírico”) – ou a rejeição do espaço-tempo vivenciado, pela projeção dos ideais nos avarandados do amanhã – segundo quem já andou no expresso / lá pelo ano 2000 fica a tal / estação final do percurso subida / na Terra-Mãe concebida / de dentro de água e sal (Gilberto Gil; “Expresso 2222”); por isso eu quero o canto da vida / divindade do duro / totem futuro total / tal qual quero o canto (Caetano Veloso; “Acrilírico”).

Dessa forma, esses e outros incertos “Quereres”, por conta de “Podres Poderes”, não foram realizados; mas Caetano e Gil e mais – quem quiser falar com deus, vai ter que subir aos céus, sem corda pra segurar – continuam cantando o tempo e o espaço, presente próximo e local futuro, na cultura tropical baiana/brasileira. Esta a cada dia mais se delineia estranha, multicultural, globalizada, conectada em redes virtuais, além da capacidade de absorção plena pelo poeta, homem/mulher que, nela se desconhecendo, de fora, como um boneco falante, observa, nas vitrines, uma realidade que não o afeta.

 

Mundo do lado de fora

Do lado de fora, a ilha,

A ilha, terra distante,

Pequena esfera rolante,

A Terra, bola azulada,

Numa vitrine gigante.

O cosmonauta, a vitrine,

O cosmos de tudo e nada,

De éter, de eternidade,

De qualquer forma, a vitrine,

Tudo o que seja ou esteja,

Dentro e fora da cabine. (Gilberto Gil; “Vitrines”)

 

A cabine é, hoje, a Bahia, e a Bahia é o microcosmo síntese de todo o Brasil, Tropical. Nesse cenário multicultural de terceiro milênio, face aos podres poderes hegemônicos, mais do que nunca há vozes que entoam, empunhando o autêntico estandarte Bandeira[11], em língua brasileiramente poética, eu não sou daqui / eu não tenho nada / quero ver Irene rir / quero ver Irene dar sua risada... (Caetano Veloso; “Irene”).

 

 

Referências Bibliográficas:

 

CYNTRÃO, Sylvia Helena & CHAVES, Chico. Da paulicéia à centopéia desvairada. Rio de Janeiro: Elo, 1999.

BAR, Décio. Caetano: acontece que ele é baiano. Realidade, Rio de Janeiro, Abril 3 (33): 188-99, dez. 1968.

FAVARETTO, Celso F. Tropicália: alegoria, alegria. São Paulo: Kairós, 1979.

GALVÃO, Walnice Nogueira “M.M.P.B: uma análise ideológica”, em Aparte, nº. 2, São Paulo: TUSP, 1968.

GIL, Gilberto & RISÉRIO, Antônio. O poético e o político. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

SOUZA, Tarik de & ANDREATO, Elifas. Rostos e gostos da música popular brasileira. Porto Alegre: L&PM, 1979.

VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.



[1] Ver, a tal respeito, A forma da festa –Tropicalismo: a explosão e seus estilhaços, obra organizada por Sylvia Cyntrão (Brasília: Editora da Universidade de Brasília; São Paulo: Imprensa Nacional, 2000) em que se traça uma ampla análise das origens e das repercussões do movimento.

[2] BAR, Décio. Caetano: acontece que ele é baiano. Realidade, Rio de Janeiro, Abril 3 (33): 188-99, dez. 1968.

[3] Comentário extraído de SOUZA, Tarik de & ANDREATO, Elifas. Rostos e gostos da música popular brasileira. Porto Alegre: L&PM, 1979.

[4] Utilizo a expressão exótica, hoje, no sentido original que lhe era atribuído na década de ’60; a visão que o restante do Brasil possuía a respeito da Bahia: um lugar que, fora (ex) da ótica do resto do país, ainda conservava sua paisagem idílica. Emprego-a por ser a palavra que melhor expressa, também, a extravagância com que os artistas surgiram no cenário nacional.

[5] A esse respeito, ver GIL, Gilberto & RISÉRIO, Antônio. O poético e o político. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

 

[6] No tocante a esse aspecto, ver a acurada e ainda atual leitura de Walnice Nogueira Galvão (“M.M.P.B: uma análise ideológica”, em Aparte, nº. 2, São Paulo: TUSP, 1968.

[7] Entenda-se por tropicália a linguagem para expressar a relação nos trópicos.

[8] FAVARETTO, Celso F. Tropicália: alegoria, alegria. São Paulo: Kairós, 1979, p. 58.

[9] As letras poéticas, cujos títulos estão dispostos antes dos fragmentos, evidenciam que há uma constante, em gradação crescente, assimilação de outros valores, agora modernos, impostos pela absorção dos avanços tecnológicos disseminados no territórrido nacional pela mídia. Essa absorção ocorre em detrimento dos autênticos valores tradicionais.

 

[10] Volto a recomendar a leitura de O poético e o político, obra em que Gil expande sua visão do comprometimento social do artista das letras.

[11] É deliberada a dupla intertextualidade com a Irene, de Manuel Bandeira.